O Fórum Econômico Mundial projeta que 86% das empresas enxergam a IA como a principal transformação tecnológica nos negócios até 2030. No mesmo relatório, 39% das habilidades dos trabalhadores devem mudar nos próximos cinco anos, com habilidades ligadas a IA no topo da lista de exigências. Apesar dos números, 70% das empresas treinaram apenas um em cada quatro funcionários, segundo o BCG AI Radar 2025.

A distância entre o que o mercado exige e o que as organizações entregam tem um nome: déficit de letramento em IA.

O que é letramento em IA de fato

Letramento em IA nao é saber usar o ChatGPT para redigir e-mails. É a capacidade de usar, avaliar, governar e tomar decisões com ferramentas de inteligência artificial com contexto estratégico, ético e operacional.

Felipe Ost Scherer, co-fundador da consultoria Innoscience e autor do artigo na Exame, distingue quatro papeis dentro de uma organização com letramento em IA maduro:

  • AI Leaders: definem estratégia, investimento e governança.
  • AI Devs: constroem, validam e protegem sistemas personalizados.
  • AI Builders: funcionários de negócio que criam soluções no-code dentro de governança coordenada, nao shadow IT.
  • AI Users: a maioria dos colaboradores, que precisam de letramento para usar ferramentas com segurança, eficiência e capacidade de dar feedback.

Essa distinção importa porque organizações que treinam apenas o time de tecnologia nao constroem letramento em IA: constroem um gargalo.

Por que isso importa para o seu negócio

Um estudo com quase 7.000 executivos de empresas do S&P 500 e startups unicórnio mostrou que a fluência em IA na alta gestão está correlacionada com direcionamento estratégico, capacidade de implementação e maior taxa de sucesso em iniciativas de IA.

A Unimed Vale do Taquari e Rio Pardo é um exemplo prático: antes de implantar sua ferramenta interna de IA, a empresa treinou todos os funcionários, da presidência ao operacional. A Boston Scientific optou por uma série interna de palestras sobre IA para construir consciência antes de exigir uso.

Os dois casos compartilham a mesma lógica: o letramento em IA precisa vir antes da ferramenta, nao depois.

O BCG AI Radar 2025 reforça o quadro: 64% dos executivos esperam que trabalhadores e IA operem lado a lado, e 22% esperam que a IA precise apenas de supervisão humana. Se as pessoas nao entendem o que supervisionam, o risco nao é de obsolescência, é de dano.

Como começar o letramento em IA na sua organização

Scherer recomenda três passos concretos:

  1. Comece pela liderança. Líderes com letramento em IA tomam decisões mais consistentes sobre o que automatizar, o que ampliar com IA e o que manter sob julgamento humano.
  2. Defina papeis claros. Nao todo mundo precisa saber programar. Mas todo mundo precisa saber usar IA com segurança dentro do seu contexto.
  3. Invista em upskilling amplo. Treinamento para 25% do time é um projeto piloto, nao uma transformação. A mudança só acontece quando chega ao operacional.

O medo de ficar obsoleto (chamado de FOBO, fear of becoming obsolete) nao deve guiar o processo. O que funciona é treinamento intencional, papeis definidos e liderança que entende o que está pedindo.


Conteúdo reescrito e traduzido para PT pela redação luiscortex, revisado por humano.

Fonte: Exame