O ex-CEO do Google Eric Schmidt, o historiador Niall Ferguson e a analista Lisa Klaassen publicaram neste domingo um ensaio na revista Foreign Affairs com uma tese que vai incomodar Silicon Valley: OpenAI Anthropic empresas coloniais do século XXI. A comparação é com as Companhias das Índias Orientais, que há trezentos anos operavam entre governos e mercados dominados, extraindo recursos enquanto mantinham dependências estruturais.

O argumento central do ensaio não é ideológico, é geopolítico. Quem consegue financiar a corrida de IA importa mais do que chegar primeiro à inteligência geral. E hoje, quem financia está nos EUA e na China. Todos os outros ficam de fora da fronteira tecnológica.

A corrida EUA versus China, e o que sobra para os demais

Os americanos lideram em modelos de linguagem por cerca de seis meses; a China lidera em robótica. Nenhum outro país chega perto como competidor real. A divisão é estrutural: os EUA têm chips avançados, mas rede elétrica velha e escassez de minerais críticos. A China tem energia abundante e reservas de terras raras, mas depende da TSMC para os circuitos mais potentes. A TSMC fica a 145 quilômetros da costa chinesa, o que os autores chamam de "o maior risco de cadeia de suprimentos do planeta".

Para países fora desse duopólio, a situação é de dependência direta. Paga-se pelas APIs, aceita-se os termos de uso, sujeita-se às restrições que Washington define. Em junho de 2026, o Departamento de Comércio dos EUA exigiu que a Anthropic bloqueasse usuários internacionais dos seus dois modelos mais avançados. A empresa desativou o Fable 5 e o Mythos 5 para o mundo inteiro. Duas semanas depois, o Fable 5 foi liberado. O Mythos 5 continua restrito a organizações americanas autorizadas, sem data de retorno para usuários de outros países.

Os autores usam o termo "plantações econômicas da era dos chatbots" para descrever como o trabalho de rotulagem de dados vem do Quênia, os minerais saem do Congo e as receitas ficam em San Francisco. Para Schmidt, Ferguson e Klaassen, as OpenAI Anthropic empresas coloniais operam exatamente nesse modelo, e a diferença em relação às Companhias das Índias Orientais é apenas a velocidade.

Por que isso importa para o seu negócio

Se você usa Claude, GPT-6 ou Gemini como parte da operação, uma mudança de regulação americana pode cortar seu acesso em horas. Não é hipótese: já aconteceu com o Mythos 5. Para quem dependia do modelo em produção, não houve aviso prévio nem prazo definido de retorno.

Os números do investimento ajudam a dimensionar o que está em jogo. Empresas americanas planejam aplicar mais de US$ 600 bilhões em IA em 2026, em grande parte financiados por dívida privada. Estimativas consolidadas chegam a US$ 725 bilhões somando Google, Amazon, Microsoft e Meta. A China planeja US$ 295 bilhões em cinco anos via títulos do governo. Em 2024, os juros pagos pelos EUA (cerca de US$ 881 bilhões) superaram pela primeira vez o orçamento de defesa (US$ 874 bilhões). O ensaio chama isso de "trilema imperial": defesa, liderança em IA e Estado de bem-estar não cabem mais juntos no orçamento americano.

A proposta do ensaio é um tratado de distensão de IA, inspirado nos acordos de controle de armamentos da Guerra Fria, que limitaria capacidades ofensivas dos modelos, principalmente em ciberataques e design de bioarmas. Os próprios autores reconhecem que a China dificilmente aceita restrições enquanto ainda está atrás tecnologicamente.

O pano de fundo legal também está mudando. A Anthropic já propôs ao Congresso americano uma lei que permitiria bloquear modelos perigosos, e o executivo dos EUA vem tratando laboratórios de IA como infraestrutura crítica de segurança nacional. O envolvimento político da OpenAI e da Anthropic nas eleições americanas é um sinal de que essa dinâmica deve se intensificar.

Para a maioria dos empreendedores, o caminho prático não é esperar um tratado. O diagnóstico das OpenAI Anthropic empresas coloniais aponta um risco real: diversifique os modelos que usa na operação, evite dependência de um único fornecedor, mantenha dados críticos em ambientes que você controla e acompanhe as mudanças regulatórias americanas com a mesma atenção que dá às brasileiras. O que acontece no Congresso americano pode afetar sua API na próxima semana.

O ensaio completo de Schmidt, Ferguson e Klaassen está disponível na Foreign Affairs.


Conteúdo reescrito e traduzido para PT pela redação luiscortex, revisado por humano.

Fonte: The Decoder