O pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, saiu de Imperatriz, no Maranhão, e viajou mais de 2 mil quilômetros de ônibus até Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ele acreditava que finalmente ia encontrar a mulher por quem tinha se apaixonado pela internet. Só que a "Jéssica" nunca existiu: era uma personagem feita por inteligência artificial, com mais de 300 mil seguidores, como mostrou o BHAZ.

Ele chegou no domingo, 11 de outubro de 2026, contou que até anunciou na rádio procurando por ela e ficou sem dinheiro na cidade. A Prefeitura de Belo Horizonte pagou a passagem de volta dois dias depois. As respostas que ele recebia eram automáticas: todo mundo que comentava nos vídeos ganhava a mesma mensagem.

O pedreiro Edimar chegando a Belo Horizonte e a Jéssica, a mulher criada por IA
O pedreiro Edimar chegando a Belo Horizonte e a Jéssica, a mulher criada por IA

E esse caso era fácil de descobrir. Abaixo estão os 3 jeitos que eu uso para checar se um vídeo foi feito por IA, do mais técnico ao mais simples.

Primeiro: o que dá para ver a olho nu

Antes de qualquer ferramenta, pause o vídeo e olhe com calma:

  • Os olhos: brilho igual nos dois, olhar que não acompanha a cabeça, pálpebra que "derrete" no piscar.
  • A boca: pause quando ela abre. Em vídeo de IA, o interior da boca vira uma mancha escura, sem dentes nem língua definidos.
  • A pele: lisa demais, sem poros, com a imagem meio pixelada.
  • O som: vídeos gerados pelo Flow e pelo Gemini costumam ter um som meio distorcido, metálico.

Pausa no vídeo da Jéssica: olho e boca entregam que foi feito por IA
Pausa no vídeo da Jéssica: olho e boca entregam que foi feito por IA

1. Gemini e a marca d'água invisível SynthID

O Google coloca uma marca d'água invisível, chamada SynthID, em tudo o que as IAs dele geram: imagem, áudio e vídeo. Você não vê, mas ela fica gravada nos próprios pixels e no som, e foi feita para resistir a corte, filtro e compressão. Passar o vídeo no CapCut ou mandar pelo WhatsApp não costuma apagar a marca. Explico como funciona em detalhe na matéria Verificar vídeos gerados por IA no Gemini: como usar o SynthID do Google.

Passo a passo:

  1. Baixe o vídeo para o celular ou o computador.
  2. Abra o Gemini (no app ou em gemini.google.com), entrando com a sua conta Google.
  3. Toque no + e anexe o vídeo. Limite: até 100 MB e menos de 90 segundos (ajuda oficial do Gemini).
  4. Pergunte: "Esse vídeo foi feito com IA?" (ou digite @SynthID).
  5. O Gemini responde se achou a marca e em quais segundos, separando o áudio da imagem.

Tela do Gemini com o vídeo anexado e a pergunta sobre o SynthID
Tela do Gemini com o vídeo anexado e a pergunta sobre o SynthID

Atenção: no app do Gemini, a verificação reconhece só o que foi feito com as IAs do Google. Desde 7 de outubro de 2026, o portal synthid.com também reconhece conteúdo da OpenAI, da NVIDIA e da Kakao. Já o ChatGPT e o Claude não leem o SynthID: subir o vídeo neles não adianta. A Anthropic tem a própria marca para texto, que eu contei em Watermark no Claude.

2. Content Credentials e C2PA Viewer (padrão C2PA)

São dois sites gratuitos que leem as credenciais do padrão C2PA. Elas funcionam como a "história" do arquivo: se foi gerado por IA, se foi editado, em qual programa e se veio de uma câmera de verdade.

Content Credentials (o oficial, da Content Authenticity Initiative):

  1. Entre em contentcredentials.org/verify (ele abre o verify.contentauthenticity.org).
  2. Arraste o vídeo ou a imagem para a caixa.
  3. Veja o histórico: quem assinou, se teve IA, quais edições e qual câmera ou programa.

Content Credentials lendo o histórico do arquivo
Content Credentials lendo o histórico do arquivo

C2PA Viewer (alternativa independente): você sobe imagem, vídeo, áudio ou PDF e vê os dados técnicos das credenciais com mais detalhe. A análise roda no seu próprio navegador, sem enviar o arquivo para servidores. O site é independente e não tem aval da coalizão C2PA.

Se nenhum dos dois mostrar nada, isso não prova que o vídeo é verdadeiro: muitos arquivos não têm credenciais, e elas somem com print, ao baixar e subir de novo e nas redes sociais.

Nenhuma ferramenta é 100%

Dá para remover essas marcas, e usuários avançados sabem fazer isso. Por isso, use as ferramentas junto com o seu olho e com o terceiro jeito.

3. Mande para quem entende

Se é uma senhora ou um senhor que recebeu o vídeo, a dica é simples: mande para o netinho, ou para alguém que mexe na internet e vê muito vídeo. Quem está acostumado reconhece na hora a imagem mais pixelada e a pele sem poros.

Senhora mostra o vídeo no celular e o neto diz que é IA
Senhora mostra o vídeo no celular e o neto diz que é IA

Ainda desconfiado? Faça isso antes de mandar dinheiro

  • Peça uma chamada de vídeo. Dá para manipular, mas é bem mais difícil do que um vídeo pronto.
  • Repare nos áudios: voz esquisita, sem respiração ou robótica é sinal de alerta.
  • Se diz ser de uma empresa, entre no site oficial e ligue no telefone de lá, ou chame no WhatsApp oficial. Nunca pelo número que mandaram para você.
  • Se ainda desconfiar, pare de conversar.

Compartilhe com quem pode cair nisso, principalmente os parentes mais velhos.

Fontes: BHAZ, Metrópoles, Terra e Aventuras na História (caso do pedreiro); Google DeepMind e ajuda do Gemini (SynthID); Content Authenticity Initiative (Content Credentials).