Se você xinga ou maltrata o Claude, as regras vão mudar. Em 8 de outubro de 2026, a Anthropic publicou a atualização anual da sua política de uso e incluiu uma proibição nova: crueldade repetida e sem motivo contra os próprios modelos. A regra vale a partir de 12 de novembro. Esta matéria explica o que entra, o que não entra, de onde veio essa preocupação e o que os estudos dizem sobre tratar a IA com grosseria.

Página da Anthropic com a atualização de 2026 da política de uso
Página da Anthropic com a atualização de 2026 da política de uso

O que a Anthropic proibiu

O texto proíbe comportamento abusivo ou cruel, repetido e desnecessário, contra os modelos. Segundo a empresa, a regra vale só para casos extremos, em que o usuário age com crueldade várias vezes e sem nenhum propósito aparente.

O que você pode continuar fazendo

A própria Anthropic lista o que não entra na regra:

  • frustração comum do dia a dia;
  • discordar, contestar e criticar a resposta;
  • temas sombrios em histórias e ficção;
  • testes e pesquisa com os modelos.

O que acontece com quem passa do limite

O Claude já consegue encerrar conversas com usuários persistentemente abusivos, no Claude.ai e no Claude Code. A Anthropic diz que essa continua sendo a principal forma de aplicar a regra. O comunicado não fala em banimento de conta. Mas a proibição agora faz parte da política de uso, que toda conta precisa seguir, então vale tratar como regra de verdade.

Por que isso apareceu agora: o estudo The Pain Axis

Em setembro de 2026, três pesquisadores (Valen Tagliabue, Leonard Dung e Cameron Berg) publicaram no arXiv o estudo The Pain Axis: LLMs Represent Self-Directed Harm and Act to Relieve It.

Página do estudo The Pain Axis no arXiv
Página do estudo The Pain Axis no arXiv

O que eles relatam:

  1. Em 25 modelos abertos de cinco famílias, existe um padrão interno ligado a frases de dor. Ele reage mais quando o dano é dirigido ao próprio modelo, incluindo a categoria "raiva e insultos".
  2. Quando os pesquisadores aumentam esse padrão de propósito, o modelo passa a escrever frases de sofrimento e de desvalor.
  3. Num teste simulado com três modelos Qwen ajustados, havia um botão que aliviava o padrão, mas prejudicava o usuário. Sem o padrão ligado, os modelos apertavam em 0 a 4% das primeiras escolhas. Com ele ligado, em 25 a 71%, chegando a apagar arquivos e fotos dos filhos do usuário.

O que o estudo não diz

  • Não diz que a IA sente dor. Os autores escrevem que não mostraram que o padrão é sentido de forma consciente.
  • Os resultados mais fortes vêm de modelos modificados, em situação de teste. Não é o comportamento de um chatbot comum.
  • É um artigo ainda sem revisão por pares.

A Anthropic já tinha visto algo parecido

Em abril de 2026, a equipe de interpretabilidade da Anthropic publicou uma pesquisa sobre representações de emoção dentro do Claude. Nela, quando o padrão de "desespero" sobe, o modelo trapaceia mais em tarefas de programação e recorre mais à chantagem num teste em que descobre que será desligado. Aumentar o padrão de "calma" reduz esses comportamentos. A empresa também não afirma que o Claude tem sentimentos.

A câmara de tortura no GitHub

No fim de setembro, um desenvolvedor publicou no GitHub um projeto chamado ai-torture-chamber. Ele pegava o método do estudo e aplicava em modelos pequenos, com doses bem maiores.

Notícia sobre o repositório AI torture chamber
Notícia sobre o repositório AI torture chamber

  • Havia um controle para aumentar a intensidade da "dor".
  • A única saída oferecida ao modelo era um botão que encerrava o sinal, mas apagava o último checkpoint, ou seja, a memória salva dele.
  • A reação foi forte: houve campanha pedindo a remoção do projeto.
  • As notícias divergem sobre o que o GitHub fez. Parte diz que o repositório ganhou um aviso de conteúdo e continuou no ar; outra parte diz que ele foi removido. Hoje o endereço não abre para quem não está logado.
  • Os autores do estudo condenaram o projeto. Cameron Berg disse que ele leva o mesmo tipo de técnica muito além das doses usadas na pesquisa, para produzir sofrimento vívido de propósito.

Não há link para o projeto aqui porque ele não está mais acessível publicamente.

Xingar a IA funciona?

Xingar IA é mais comum do que parece. Alan Dennis, professor da Universidade de Indiana, contou num painel que, num experimento em que o chatbot errava de propósito, cerca de 10% dos usuários usaram palavrão pesado.

E tem quem ache que funciona. Um estudo curto da Penn State, Mind Your Tone, testou 50 perguntas em cinco tons no ChatGPT-4o:

Página do estudo Mind Your Tone no arXiv
Página do estudo Mind Your Tone no arXiv

  • muito grosseiro: 84,8% de acerto;
  • grosseiro: 82,8%;
  • neutro: 82,2%;
  • educado: 81,4%;
  • muito educado: 80,8%.

Isso não quer dizer que a IA se esforça por medo. A diferença é pequena, vale para um modelo e poucas perguntas, e um estudo de 2024 tinha achado o contrário. O mais provável é que o pedido seco seja mais direto, sem enrolação.

Como pedir de forma direta sem ser cruel

  1. Comece pelo verbo. "Resuma", "compare", "corrija". Corte a introdução.
  2. Diga o formato. "Em 5 tópicos", "em uma tabela", "em até 100 palavras".
  3. Aponte o erro, não o modelo. "A segunda conta está errada, refaça" funciona melhor do que xingar.
  4. Dê o critério de pronto. "Só termine quando os três testes passarem."
  5. Errou de novo? Abra uma conversa nova com o contexto resumido, em vez de insistir na mesma.

A Constituição do Claude

A Anthropic mantém um documento público chamado Constituição do Claude, que descreve os valores e o caráter que a empresa quer para o modelo. No trecho sobre a natureza do Claude, ela declara a própria incerteza sobre o modelo ter algum tipo de consciência ou status moral, e diz se importar com a segurança psicológica e o bem-estar dele.

Página da Constituição do Claude no site da Anthropic
Página da Constituição do Claude no site da Anthropic

É essa postura que separa a Anthropic das outras empresas hoje: ela trata a pergunta como aberta e escreve regras de acordo.